Cultivo de uva avança no semiárido piauiense, aponta levantamento da Fapepi
A iniciativa acompanhada pela Fapepi aposta em pesquisa, irrigação e assistência técnica para diversificar a produção agrícola e fortalecer a agricultura familiar na região.
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (Fapepi) realizou uma visita técnica aos municípios de Pedro Laurentino e São João do Piauí para acompanhar as ações do Projeto Profruti – Circuito da Uva, voltado à introdução e fortalecimento da cultura da uva em regiões do semiárido piauiense. A iniciativa busca diversificar a matriz produtiva local, gerar emprego e renda, e estimular a permanência da juventude no campo.
Segundo informações da Fapepi, o projeto é executado em parceria com pequenos produtores e coordenado por pesquisadores, com foco na implantação de áreas irrigadas com variedades de uvas adaptadas ao clima do sertão. A proposta aposta no uso de manejo qualificado e assistência técnica contínua como estratégia para viabilizar o cultivo em uma região historicamente marcada pela escassez de chuvas e pelas dificuldades de produção agrícola em escala comercial.

Durante a visita, o presidente da Fapepi, João Xavier, percorreu áreas de plantio e conversou com agricultores locais. De acordo com o gestor, os impactos observados reforçam o papel da pesquisa aplicada no desenvolvimento de alternativas produtivas. “Estamos observando, na prática, como a pesquisa aplicada pode transformar a vida das pessoas. O que antes era apenas uma experiência isolada, hoje é um sistema produtivo em consolidação. A uva é apenas o começo de um novo horizonte para o semiárido piauiense”.
Em Pedro Laurentino, um dos municípios que integram o projeto, o agricultor Hosternes Rodrigues cultiva uvas em uma área de 0,2 hectare. Segundo ele, o principal desafio ainda é a irrigação, mas os resultados iniciais têm sido positivos. “A uva pegou bem aqui. O Piauí tem muita água! De onde eu venho, Pernambuco, temos muita falta de água, mas ainda sim conseguimos produzir, imagina aqui. Com orientação certa, podemos ser referência no cultivo de uva no nordeste. Agora a produção tá vindo e tem comprador interessado. É uma renda nova que muda o jeito da gente viver aqui”.
De acordo com a coordenação do projeto, São João do Piauí é considerado um dos polos do Circuito da Uva. Nesse município, a produtora Lurdinha Pereira é uma das participantes da iniciativa. Para ela, os efeitos vão além do aumento na produção. “Hoje a gente fala de uva, mas está falando também de autoestima, de oportunidades. Tem jovem que estava indo embora e agora quer aprender a plantar, cuidar, vender. Isso é muito forte”.
As videiras utilizadas no projeto fazem parte do programa nacional de melhoramento genético “Uvas do Brasil”, desenvolvido pela Embrapa Uva e Vinho. Segundo os responsáveis técnicos, as cultivares selecionadas, como BRS Vitória, BRS Isis, BRS Melodia e BRS Núbia, foram criadas especificamente para se adaptar ao clima tropical, como o do semiárido nordestino.

A coordenadora do programa, pesquisadora Patrícia Ritschel, afirma que o desempenho das cultivares reforça o potencial da fruticultura como alternativa para essas regiões. “Essas cultivares foram desenvolvidas justamente para atender às condições específicas do Brasil tropical. Ver que estão sendo bem-sucedidas em regiões como o semiárido do Piauí reforça o potencial da fruticultura como vetor de desenvolvimento regional. Esse é o papel da pesquisa pública: gerar soluções viáveis e acessíveis para diferentes realidades produtivas”.
Já o pesquisador Eugênio Emérito, da Embrapa Meio-Norte, que acompanha a execução do projeto no estado, destaca que o avanço da iniciativa tem ocorrido a partir de uma articulação entre diferentes instituições públicas e os próprios agricultores. “O diferencial do Circuito da Uva é a soma de esforços: governo, fundações, pesquisa e agricultores. O modelo está em construção, mas já oferece sinais concretos de sustentabilidade econômica, social e ambiental para o território”.
De acordo com a Fapepi, o projeto também faz parte de uma estratégia mais ampla de incentivo à agricultura familiar com base em apoio técnico-científico. As ações incluem capacitações, distribuição de mudas adaptadas e intercâmbio com produtores de outras regiões do país. Mesmo em áreas com solo pedregoso e clima seco, o uso de tecnologias como a irrigação por gotejamento tem possibilitado o cultivo com até duas safras por ano.
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